Muito difícil ser bom de novo
Meu quarto vive em completa desordem. São sapatos em todos os cantos, folhas de papel que não acabam mais, livros nos lugares mais inusitados e roupas espalhadas pelo chão. Já achei possível mantê-lo limpo e organizado. Já juntei vassoura, criatividade e disposição, mas não consigo conservar algo diferente de mim por mais de dois dias.
Não era assim quando eu morava com minha mãe. Decerto que ela me obrigava, periodicamente a arrumar a bagunça daquele pequeno pedaço da minha vida mas, desde que sai de casa, perdi o controle sobre todos os outros cacos também. E quem disse que eu poderia tudo sozinho? Aliás, tenho ouvido falar sobre a pessoa que me tornei desde que me deixaram sozinho: muito agressivo, cheio de auto defesas. Eu sei que, na verdade, estou me acabando velho, vazio e secando.
Meus sonhos murcharam com uma flor e não consigo sequer empilhar folhas de papel. Todos os sapatos, livros e roupas se espalham porque eu já não junto mais os meus pedaços.
E, se vem alguém que preciso impressionar, faço de conta que ainda sou aquele de outrora. Cato todas as coisas largadas no caminho da cama e entulho dentro do guarda-roupas. Mas também não dura dois dias... Eu sou meu próprio quarto. Tem boa aparência pra quem chega, mas no fundo é uma desordem.
Pensei em um, em outro. Pensei naquele, nem quis pensar no primeiro.
Não povoa mais meus pensamentos...
Me joguei de volta na cama, joelhos dobrados, pernas bem junto ao corpo,
braços cruzados como quem se defende, um aviso para não se aproximar mais.
E feito feto, me entreguei aos pensamentos mais diversos
Sobre os outros que passaram por ali e, como esse, não deixaram nada além de lembranças
Dessa vez por minha culpa, repulsa
também de mim.
E no computador que estava ligando, vi minha imagem na tela ainda escura
De boca diminuída, cenho franzido e olhar triste
Sujo que sou.
Esse é o reflexo que não quero...
Lila in love
A vida de Lila é mesmo uma novela. E ela preferiu segurar um pouco a escrita das cenas. Não que não tivesse o que dizer, ou porque fossem desinteressantes os seus dias. Mas os espectadores, apesar de reclamarem um pouco, não conseguem parar de assistir.
E Lila percebeu que finalmente aconteceu algo bom o suficiente pra contar. De seis dias pra cá, Lila aprendeu um poucos sobre coisas nunca antes refletidas e parece estar reaprendendo algo que pensara ter esquecido para sempre.
Lila aprendeu que, apesar de tudo parecer estar desmoronando, não adianta pensar nas causas do problema, ou nas consequências que acarretará. É mais importante pensar na solução.
Apesar de tudo parecer estar desmoronando, jamais deve repetir para si que nada na vida dá certo. "Tudo o que acontece é atraído para nós por nós mesmos..." E o constante pensamento positivo sempre trará coisas positivas para a vida.
Apesar de tudo parecer estar desmoronando, deve-se rir, rir do mundo, rir de si e para os outros.
Apesar de tudo parecer estar desmoronando, Lila agora sente que pode se apoiar num pilar. De mais ou menos um metro e oitenta, covinha nas bochechas, pinta perto dos lábios, com os olhos mais sinceros e o sorriso mais bonito. Esse pilar é que faz Lila reaprender algo que pensara ter esquecido para sempre. Mas isso é assunto para desenvolver nos próximos capítulos...
Tempos de tempestade
Dias ruins começam com um bolo na véspera. Defitivamente. Depois se seguem dormir mal, acordar atrasada, chegar depois do chefe e descobrir que o processo que você ficou fazendo em casa até meia noite e precisa apresentar impresso até às dez da manhã, ficou gravado em um disquete que não abre. Você reza pra pegar o mais rápido possível uma alergia perversa que vai deixar seus lábios do tamanho de uma laranja e a pele vermelha que nem um tomate, pra ficar na cara que você realmente tem um problema e precisa de uma dispensa para ir ao médico.
Lila sabe bem o que é isso. E o que ela costuma fazer nessas situações é desenvolver um curioso colapso nervoso sintomático de respiração ofegante, dislalia e dor de barriga. Para dias ruins, Lila sugere um galinho de arruda, sempre a postos, para o caso impossível de não conseguir reclusão em domicílio, repouso de doze horas e abstinência de qualquer estreitamento com o mundo exterior, seja ele uma simples conversa por telefone. Que dirá sobre contato sexual(?) como suas amigas gostariam que tivesse feito no fim de semana.
Lila adora ser a amiga solteira de meninas que namoram. Pois essas sempre saem com os namorados e a convidam para ir junto. Lógico que os namorados das amigas preferem um momento a sós, mais íntimo, e por isso levam junto seus amigos solteiros para apresentar à Lila. Apesar de dias ruins no escritório- um lapso pois Lila é muito esforçada e eficiente- ela não pode reclamar que não esteja apostando alto na loteria do amor. E agora sim, investindo em vários bilhetes.
Tudo bem que tudo tenha dado errado hoje. Tudo bem que ela recebeu um bolo na véspera e em seguida uma promessa não cumprida de encontro. Isso pode significar muitas coisas, inclusive que ele simplesmente não está afim dela. Mas apesar de tudo, Lila quer deixar bem claro que não tem nada a ver com fato de Fábio ter se separado da esposa...
Tempo da delicadeza
Ponto de vista número 2:
Apesar de andar sempre muito atarefado também, não quero o tempo da delicadeza... Muito marasmo e repetição de idéias. Quero movimento e ansiedade, frio na barriga e a sensação de que o coração está tão acelerado que pode parar a qualquer momento... Quero me apaixonar até doer, quero conhecer, descobrir, desvendar.
Não quero tempo para roubar ventos, procurar espinhos na clareza da água, criar peixes coloridos no fundo dos bolsos.
A imagem que se apresenta é belíssima, de um bucolismo sem medida, mas só me vejo sozinho nas metáforas. E me proibo me acostumar- quiçá gostar- dos vazios e dos infinitos. Carregar água na peneira... Sentimento trabalhoso. E por demais infértil. Quero preencher vazios e, definitivamente, ser amado por meus despropósitos...
A gente passa a vida toda temendo a morte. Logo a morte que é a única certeza da vida. Medo de morrer lentamente, de doenças incuráveis, de ter que lidar com a noção de que a morte vem vindo e não se pode agir contra. Medo de ver a morte dos amigos e entes queridos, de ser pego de surpresa e não ter o direito a um último adeus. A gente passa a vida toda temendo a morte. Mas às vezes a gente vai morrendo em vida e essa é a pior maneira de se fazer a "passagem". Nosso medo vem da dúvida, da incerteza do que nos espera. Desespera o pensamento de que vamos deixar mãe, esposa, filhos. Mas chega um momento na vida de extrema provação em que observamos o nosso mundo se desvanecer- não temos mais controle sobre nossas dívidas, perdemos o carinho da pessoa amada, enfrentamos baixa de imunidade, tudo parece conspirar contra nossa gana de viver. Os hábitos tomam lugar dos sonhos, o costume invade a sala, fecha as janelas e a gente esquece a vida, esquece a amplidão, esquece o medo. É quando nos dizem para termos equilíbrio e fé, mas só o que temos é pressa. E abrimos mão do café da manhã porque estamos sempre atrasados, aceleramos um pouco mais para não chegar depois da hora e às vezes nem nos damos conta de que estamos dirigindo- perigosa distração- não paramos um minuto sequer durante o dia porque não temos tempo a perder sendo que tempo é tudo o que nos falta- estranha controvérsia. E quando estamos em casa, à noitinha já, a gente come um misto-quente e dorme já que o sono está sempre atrasado.
Eu costumo avaliar meu dia na cama, minutos antes de cochilar. Mas essa avaliação tem se tornado cada vez mais rápida, pela falta de novidades, pela repetição de idéias, por não ter em quem pensar- perder o sono. E o tempo está acabando...
Mais uma da Lila
As últimas notícias da Lila giram em torno de certa boemia, algumas dores de cabeça e decepções amorosas. Lila parece ter o dedo podre pra escolher homem. Descobriu que seu chefe definitivamente não come dessa fruta, o bonitão da academia já fez muito uso de hormônios e, dizem as más línguas, não conseguirá uma ereção para satisfazê-la e um dos seus últimos casos, apesar de ter reaparecido, continua muito bem casado, obrigado!
Mas Lila tem uma queda por homem cafajeste. Fábio, por exemplo, é excelente conversa, entuasmática companhia, de um romantismo sem tamanho, possui o sorriso mais bonito da cidade e tem uma "pegada" que a faz subir pelas paredes. Além de ser um tagarela- e como isso agrada à Lila. Saber o que se passa na vida do outro, conhecer as idéias que ele guarda no fundo da alma, ouvir dele como ela é bonita, inteligente, extrovertida, acolhedora... Fábio sempre conta novidades de seu casamento- às vezes entra no assunto pra dizer que não tem novidade nenhuma. E Lila escuta. Escuta sobre o conforto- não amor- que Fábio sente ao lado de sua esposa. Escuta que ele não é mais capaz de amar alguém de forma a se entregar totalmente. Escuta, horrorizada, que um casamento pode seguir sem sexo. Pelo menos entre o casal, o que significa que este casamento segue solto cada um se virando como pode...
Lila não está nem um pouco inclinada a acreditar nessas histórias. Não vai aceitar de Fábio só esse pouquinho que ele deseja oferecer mas, para uma pessoa que não se acostuma a ser sozinha, não há de fazer muito mal algumas noites acompanhada. É claro que ela gostaria de ir ao cinema, jantar com os pais dele, sair de mãos dadas por aí... Lila já se conformou que não pode ter tudo. Até o grande dia chegar, umas maldadezinhas com o casamento alheio não vão impedí-la de entrar no Céu. Principalmente se a esposa de Fábio não descobrir nada. Humm, mas bem que não seria má idéia...
Ninguém é perfeito
Mas como pode ser tão bem feito
Se tem um defeito assim?
Fez faltar o pão na minha mesa
Apagar minha chama acesa
E emudecer o meu clarim
Tive vontade de me esconder no mato
De apertar o meu sapato
Me acabar no botequim
Desfaleci meus sentimentos
Me entreguei a pensamentos
Que não tiveram mais fim
Quis me entregar ao choro
Quis que não houvesse socorro
Quis me perder de mim
Quis que vivesse ao meu lado
Mas olha tem namorado
E eu fiquei cor de carmim
Fumei algum cigarro
Quando não sobra nenhum pedaço
Quero ser todo ruim
Mas vou catar calor em outros braços
Caminhar pra criar laços
Com quem não me ache tão chinfrim
Lila
Lila é uma garota inteligente e esperta. Lila foi educada para ser boa esposa e mãe. Lila está aguardando a chegada de alguém que possa ser seu marido e pai de seus filhos.
Lila é muito educada e dedicada ao seu trabalho. Acorda cedo pra tomar banho e café da manhã. Sai de casa pontualmente. Lila nunca se atrasa pra um compromisso. Lila adora o ambiente do escritório onde fica até às cinco da tarde. É organizada e tem respostas na ponta da língua. Trabalha com computadores e pessoas. Sabe exatamente como lidar com máquinas, mas não tem a mão muito boa para pessoas. Lila acha seu chefe uma graça e olha para o traseiro dele vez por outra.
Lila pensou um dia que precisa de um homem urgentemente. E resolveu romper umas barreiras. Largou na cama o livro que lia e deixou comida na vasilha para seu gato. Lila botou uma roupa provocante e maquiou o rosto. Saiu sozinha para o bar, pediu uma bebida e acendeu um cigarro. Era o comentário do bar: a tragada mais sensual que já viram... Lila passou frio essa noite. "Provocante demais" pensou e riu. E ria de tudo. Os outros observaram seu corpo arrepiado e os espasmos musculares que sentia. "Ela deve estar excitada ou nos excitando...". Definitivamente estava sendo paquerada. Olhares masculinos, sobrancelhas arqueadas... O batom de Lila começou a arroxear, combinando com as suas unhas sem esmalte. A vista de Lila escureceu e ela acordou no hospital já curada da hiportemia e do álcool. Sem ninguém do bar que a levara para o médico. Só uma noite em observação e ela pôde, no dia seguinte, pagar a conta e receber alta.
Lila não vai pagar esse mico novamente. Mas recebeu uma dica essa semana e decidiu aproveitar, já que perdeu a dignidade mesmo, pra romper barreiras maiores. Agora Lila vai dar um mole horroroso pro seu chefe- a bunda mais empinada do escritório...
Ressucitou no sexto mês
Seis meses depois de "Você não está me dando o tempo que eu preciso!", acho que ainda precisas de um tempo. Para colocar a cabeça no lugar e não tirar mais a minha da posição centrada e ereta em que se encontra. Que direito pensas que tem de voltar ao mundo e me cobrar notícias que eu, displicente, deixei de dar? Penso que estás te fazendo de tonto. Tantas vezes te implorei que sentisses pena de mim e não me abandonasse daquela forma- cruel despedida, surpreendente adeus. Tu ficaste silente enquanto me ouvia chorar, gritar, espernear, implorar um sentimento teu até desatar o meu mais sincero "Não te procuro mais...". E agora que já pensei nos teus erros, já te julguei e crucifiquei, agora que nem penso mais em ti, agora que- acho- já te perdoei, agora quer voltar à vida, arrastar a pedra e deixar o sepulcro? Não se foram três dias... Tua carne já é podre e tua alma nunca foi pura, nunca foi santa. Não te desejo nenhum calvário. Mas já lavei minhas mãos, não me responsabilizo por ti e não te permito ressucitar porque não quero meu coração te elevando aos céus, adorando-te e enchendo-se de júbilo. Falso júbilo... Descanses em paz.
Eu esperei o dia passar
Pra saber que nossa história não teria final feliz
E quando o sol do novo dia despontar
Vou ouvir essa canção que eu mesmo fiz
Você sabe que é errado
Você faz e não quer saber
Que o meu coração despedaçado
Já foi tão maltratado
E agora mesmo por você
Você diz que é verdade
Me lava os olhos de saudade
Mas não posso acreditar
Te esperei minha vida inteira
E você me deixa no fim da feira
Tendo tanto pra arrumar
Sei que foi por maldade
Mas que você tenha a bondade
De me reparar o coração
Que o seu tom saia do fundo do peito
E que você tenha muito respeito
Quando cantar essa canção
Olha o Ted mudando o visual
Às vezes usa barba, outras vezes não
Olha o Ted mudando o endereço
Querendo habitar um coração
Mas isso não acontece e o Ted tem medo
Olha a Drica apaixonada
Olha a Drica olhando pra trás
Dessa vida ela não quer nada
Além do amor que não vem mais
Olha a Drica sonhando com desejo
Repare que ela vai acordar com medo
Olha a Lu querendo casar
Olha a Lu comprando enxoval
Escolhe vestido, convida padrinho
Isso não vai acabar mal
Olha a Lu querendo sossego
Olha no olho que ela tem medo
Olha o André escrevendo amigos
Olha o André chorando saudade
Olha o André querendo contigo
Perder o medo de não haver felicidade
... Em tous temps
Brasília é um gelo nessa época do ano. Hoje eu tomei um banho frio pra despertar. Do sono e do sonho.
Do sono que sinto por minhas noites mal dormidas, por meu trabalho que me consome, minha dor que não cessa e pela boemia que não consegui abandonar como muitas vezes prometi.
Do sonho que tive de ter pra mim um anjo que não quer. Não quer ser anjo, não quer ser meu. Que me disse não ter asas mas voou pra tão longe que não pude alcançar. Voou tão alto que me escapou das mãos.
Escorreu meu sonho como essa água fria que me adormece o corpo. Me fez despertar da vontade que tinha de vê-lo, da saudade que queria sentir, dos encontros que desejava acontecessem, do anseio que nutria em não ver meus dias passando simplesmente, sem objetivo, da necessidade que tenho de me saber vivo, de ter esperança.
Levou consigo tudo o que havia. E minha ilusão foi sugada pelo ralo, roubada de mim a única coisa que restava, o último recurso ao qual me agarrei com todas as forças, desesperadamente.
E, violento, se foi sem molhar suas asas. Sem ebriar o seu vôo. Sem olhar para trás. Sem pena de mim.
Brasília é um gelo nessa época do ano. Hoje eu tomei um banho frio pra despertar. Lavar a alma... Lavar a alma...
Ele queria ser rei
Queria ser general
Mas viu que não podia ser
Permaneceu igual
Ele queria ser pai
Queria muito ser herói
Mas a vida se desfaz
E o torna seu próprio algoz
Ele queria ser tudo
Sempre estar e tudo ver
Tantas as voltas do mundo
Agora ele não pode mais ser
Ele queria ser livre
Queria cada vez mais
Hoje nem sabe se vive
Morreu e não descansa em paz
Saudade dói demais. Vem latejada em momentos que a gente nem espera. Às vezes uma história, uma frase engraçada que lembramos de alguém que não vemos mais é suficiente pra rir e depois enrijecer o cenho, entristecer o dia, fazer chorar. Saudade dói muito, mas o momento da despedida consegue ser pior.
Passava férias com minha família em Pernambuco- e morava no Rio. Era só um mês a cada três anos. E quando acabava, ficava aquela sensação de "Meu Deus, quanto tempo ainda vou esperar pra vê-los novamente?" Eu tinha nove anos, doze, quinze... Sempre deixava as lágrimas caírem de duas em duas, os olhos vermelhos. Despedida.
Vim pra Brasília há uma ano e na rodoviária eu vi amigos e família dividirem o mesmo espaço que meu medo do desconhecido, da mudança que representaria na minha vida. Minha mãe chorou tão abertamente e desconsolada que minha vontade era descer correndo ou atravessar aquele vidro de janela pra lhe entregar meu abraço e dizer que era tudo mentira. Que eu não iria mais. Não chorei antes do ônibus sair para que ela, na minha força, se sustentasse. Cruel despedida.
Recebi uma ligação de fim de namoro. Brasília mudaria mesmo minha vida- sempre soube. E minha impotência foi tão desesperadora que me fez chorar, humilhar, implorar por um sentimento qualquer vindo do outro, nem que fosse pena. Era adeus e eu nem tive chance de abraçar. Mesmo adeus que se dá àqueles que morrem e você nem espera. Simplesmente acontece e aquilo que você precisava dizer... Não diz. Amarga despedida.
Conheci alguém. Três semanas, Caldas Novas, Moscatel e Pringles, beira do lago, baladinhas e certeza de que podeíamos ser nós mesmos sem fingimento. Costume de sempre todo dia. Vontade de tudo pra sempre. Foi embora também e me largou sozinho no fim da feira, no fim da festa- quando a gente olha em volta e vê a bagunça, a confusão que fica- há muito pra arrumar porque a vida vai seguir como antes. A pior das despedidas.
Mas que doa. Me permita despedir. Me deixa ter enquanto puder. Três semanas, três dias, não importa. Quero passar a véspera da despedida em claro só para vê-lo dormir, para que não saia mais de mim o seu sono tranquilo. Quero que me arda o peito e sufoque o caminho para o aeroporto, as mãos doendo de se apertar numa aflição de estar junto, como se pudesse eternizar o outro na pele- tatuagem. Os beijos desesperados porque parecem esvair-se, porque sei vão secar. Uma angústia, uma raiva dos caminhos da vida.
Me deixa, eu quero sentir. Eu preciso dessa dor pela certeza de que, se há despedida, é porque houve encontro. Eu morreria sem os encontros- me enchem de vida, me iluminam o dia, me garantem paz. Os encontros são tão engrandecedores que me fazem esquecer que haverá despedida. Me fazem sempre querer voltar...